sexta-feira, 26 de março de 2010

5th Avenue. Spring, March 2010.

Ilustra: Normam Rockwell

Entrei pela primeira vez na igreja de St. Patrick.
A verdade é que, com os dias contados para ter que sair da casa onde estou e sem grana pra alugar quarto algum, precisava de um lugar silenicioso pra pensar, orar... mas lugar silencioso em alta Manhattan, so um milagre daqueles bem grandes! – talvez maior do que conseguir o quarto.

Quando penso em “silêncio” me vem sempre a mente 3 lugares: 1. um grande antigo cemitério - eles sempre tem bancos gelados pra sentar e arvores com sombra larga; 2. um templo budista – claro, se eu estivesse no centro de Pequim talvez encontrasse um, mas em plena 6th Ave.... maybe! In NYC everything is possible! Mas não... entrei no terceiro lugar mais silencioso da Terra: uma igreja católica.

Por que os templos se parecem com cemitérios ou mausoléus e sepulcros são iguais a templos? nao sei...

O problema é que essa não é uma igreja católica qualquer. Essa é a St. Patrick Cathedral em semana de St. Patrick’s day! Quanta gente entrando e saindo, quantos flashes estalando e brilhando ao mesmo tempo. Os santos dos vitrais pedem por sunglasses quando o brilho das máquinas parece concorrer com o sol de inicinho de primavera. “Quem sabe quando a missa começar...”, penso na esperança de me ver livre das dezenas de turistas que circulam pelos corredores da catedral.

Sentada em um dos bancos ao centro da igreja tento relaxar, estico minhas pernas por cima do murinho de se ajoelhar, encosto minha nuca na madeira do baixo acostamento e olho para o teto – verdade, bancos de templos costumam ser mais desconfortaveis do que os bancos de cemitério, talvez por isso os budistas se alongam e despensam cadeiras. No lugar onde imaginamos encontrar criativos e sensuais arfrescos sobre o céu e o inferno, enxergo as gigantes laranjas da Flórida ou algo mais parecido com as abóboras de halloween, bem maduras e envoltas por relvas de concreto cinza. Tento imaginar por que cargas d’água o artista decorou a o teto da igreja com abóboras? Por outro lado me sinto confortável de nao me confrontar com os olhares “esquisitos” de anjinhos barrocos peladinhos a me perseguirem.

Depois de passar alguns minutos interrogando-me a respeito das aboboras de St. Patrick, passo a olhar mais a diante. Acima do altar principal, quatro pratos de cobre estão suspensos com chuveirinhos de cordas pretas penduradas. Realmente não faço idéia do que sejam, se são símbolos ou algum simples utilitário medieval... Insensários talvez...

Levanto a cabeça e me sento direito. Olho para o fundo do templo. Essa foi a visão mais interessante do dia! O gigantesco órgão que fica acima da principal porta de entrada em frente ao mais fabuloso vitral que já vi na vida! Como mozaicos de diamentes turqueza e escarlate. Divino! Baixando os olhos enxergo muçulmanos entrando no templo para fotografar... Penso em como é impressionante o poder da beleza e como ela quebranta barreiras e começo a pensar nos motivos que tornaram a beleza um conceito por demais subjetivo e até diluído no pensamento moderno, mas alguns fatos me fazem acreditar q a verdadeira beleza consegue ser tão absoluta e universal quanto a própria divindade, e que nem a mais doentia mente moderna o conseguiria obscurecer. Como o “sublime” referente.

Olho para a entrada novamente e me assusto. Do outro lado da rua o Hércules com seus músculos de bronze a sustentar o mundo nas costas e com fúria parece querer atirar o globo de aros contra a frente da catedral!

Alberto Caeiro! Onde estás vós que não desanuvias minhas ilusões??

Preciso esvaziar a mente dos burburins, do transito, das pegadas que fazem mais barulho do que os turistas no mármore da catedral e suas máquinas de última geração, das preocupações e das abóboras também. Vou fechar os olhos!

(Sou protestante. Rezo de olhos fechados).

See you soon!
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5 comentários:

Soraya disse...

Gringa!!! Espero que encontres o lugar silencioso, mas que não seja eternamente silencioso....BUUUH!!!!! ehhehe

Diario de Bicicleta disse...

Égua, paidégua experiência e reflexões Ms Luz.

Victor

Rose Marinho Prado disse...

por que será q nesta igreja encontra=se arte semelhante à Idade Média? A América só selvagens, nesse tempo.

Igreja teatro? Lugar p orar?

Bjs

Analuz disse...

Oi Rose!Sobre as semelhanças com o medievalismo acho q é a influencia... A Catedral de St. Patrick foi inaugurada no sec. XIX! E mesmo no sec. XXI a referencia estética do alto clero continua sendo mediavalista, não?

Igreja, templo.. penso q são lugares simbólicos para habitação de Deus, ou lugares que convencionamos para um encontro com Ele e de comunhão com o próximo.
Mas, claro, um dos mais importantes atributos da divindade é a onipresença, portanto Ele está em todos os lugares. O templo definitivamente não é o lugar que o mantém recluso ou restrito.
Templo também é um símbolo do corpo. Paulo, em sua carta aos Corintos já dizia: "nao sabeis isto? Vóis sois o templo do Espírito Santo". É muito bom comungar com os irmãos, mas sabemos que a Igreja mística de Deus não cabe nas quatro paredes dos templos de pedra.

Teatro? Pq teatro? Acho q alguns estão mais pra semitérios e mausoléos mesmo...

Sylmara Luz disse...

Oi, Dinha linda! Agora que li esse teu post. Tu és "ralada" mulher! Q firme! As descrições estão muito boas... E é muito jóia poder saber por onde andas e como vês os lugares e as situações. Saudades de ti!
Bju!!